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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Estar-se a "marimbar"


No atual contexto de crise que ainda vivemos, aqui no Algarve (e provavelmente em outras zonas do país) é chocante ver a quantidade de gente que se está a completamente a "marimbar" para quem passa mal.

Não falo só do abandono de idosos nos lares, sem visitas e sem que alguém da sua família mostre interesse e carinho. Falo também do alheamento da esmagadora maioria das pessoas, em particular, daquelas que, fruto do seu trabalho ou de heranças, têm mais possibilidades financeiras e mais poderiam ajudar quem mais sofre com o desemprego, a falta de comida para alimentar os filhos, de dinheiro para pagar rendas, a água, luz, uma botija de gás, etc.”O que é que interessa!” pensam aqueles a quem vida corre bem.

Não têm nada a ver com isso! Cada um que saiba de si! O Estado que se endivide mais para lhes dar subsídios e apoios! Uma parte da população são autênticos monstros indiferentes que só se preocupam com o seu umbiguinho, as suas viagens, o seu bem estar, os seus programinhas e o resto é lá com eles.

 
 
É engraçado que muitas  histórias de heróis e grandes façanhas, verdadeiras ou de ficção, começam com um dilema moral. Falam-nos de pessoas normais, objectivamente sem grandes meios humanos ou materiais que, a dada altura são "importunadas" por alguém com quem se cruzam e alguém que os despertam para desafios e realidades que até aí lhes eram completamente alheias. E estando numa situação acomodada, aburguesada, com projetos de bem estar e conforto são abanadas e atraídas a sair da sua concha. Alguém lhes atira um balde de água fria à cara e lhes pede que compliquem a sua vida, deixem de olhar só para o seu umbigo, os seus bens e os seus programas para se meterem em assuntos e pessoas que nada têm a ver com a sua vida: gente que não é da sua familia, nem sequer sua amiga ou do seu país ou região; gente que, pelas mais variadas razões, são oprimidas, passam mal e são vítimas de injustiça.

E este dilema moral está lá sempre presente: “borrifo-me ou preocupo-me” ?

Estou-me a lembrar dos Alentejanos que, em 1384, D.Nuno Alvares Pereira desesperadamente tentava convencer a participar na futura (e aparentemente suicida) batalha de Atoleiros, tendo inclusive apanhado alguns a meio da noite a desertar.

Estou-me a lembrar de Bilbo Baggins e do seu sobrinho Frodo que resistiram ao apelo de Gandalf e dos anões para viajarem a terras distantes e desconhecidas, quebrando o aparente ciclo de felicidade do Shire onde estavam comodamente instalados.

Estou-me a lembrar da estudante universitária norte americana Jean Donovan que, desafiada pelo capelão da sua Universidade, lançou-se no interior de El Salvador, acabando assassinada, em 1980, de forma brutal e que antes de partir para a América do Sul, perguntava-se a si mesmo “Porque é que eu não posso ser apenas uma insignificante dona de casa dos subúrbios ?”

Estou-me a lembrar do sr Scrooge  do “Conto de Natal” de Charles Dickens, o milionário ávaro, mal disposto contra o mundo e contra todos.

Infelizmente o que se vê à nossa roda, é a esmagadora maioria das pessoas metidas em si mesmas e nas suas coisas, querendo gozar tudo o que de bom a vida tem para dar, encolhendo apenas os braços pela má sorte de outras pessoas menos afortunadas. Alguns parece que querem levar o dinheiro para a cova. São casos quase patológicos.

Como diz o Papa Francisco "Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais () Ninguém se pode sentir demitido da preocupação pelos pobres e pela justiça social” “Evangelii Gaudium 201”.
Menos indiferença, menos alheamento! Quem mais tem, tem que se sentir responsabilizado !         

terça-feira, 6 de maio de 2014

Os políticos indiferentes



"No mesmo dia, a CPCJ de Santarém dá a conhecer a necessidade urgente de uma "valência de apoio familiar e aconselhamento parental" para estudar e prevenir situações de risco e apoiar os jovens e as famílias, para quebrar um ciclo de repetição de comportamentos e de situações disfuncionais. Também na semana passada, num semanário nacional, Luís Cabral publica um artigo intitulado “De pequenino se ...torce o destino” em que, ao analisar a eficácia dos investimentos em matéria de política educativa, chama a atenção para a inultrapassável necessidade de trabalhar as famílias e com as famílias para promover o desenvolvimento sadio e o bem-estar das crianças.
(...) Em Portugal, não há uma visão integrada de intervenção na área da infância e da família, e como tal, não há visão estratégica nem planos de intervenção a prazo que garantam uma acção consistente de promoção do bem-estar e do desenvolvimento das crianças, apesar de dispormos de um quadro legal recente que o permitiria. A ausência de projecto e de vontade política nesta área, para além de representar uma violação dos direitos das crianças, compromete o seu e o nosso futuro".


 Maria do Rosário Carneiro Página 1 de 6/05/2014

Bom artigo de Maria do Rosário Carneiro que chama à atenção para a necessidade de acompanhamento quase permanente das famílias em situação de exclusão social.
Verifica-se em muitas delas uma carência gritante de competências básicas e sociais que as tornam incapazes (a si e aos seus filhos) de sair do poço.
O CPCJ, o sistema de Segurança Social, Educativo e Judicial funcionam apenas como um "apaga-fogos" só atuando em casos de produção de efeitos ou risco iminente.
Esquece-se a formação, a monitorização, a integração, por exemplo, das crianças em ocupações dos tempos livres saudáveis.
As famílias em exclusão social encontram-se social e fisicamente imobilizadas e, na sua maioria, "fisicamente imobilizadas" mesmo do ponto de vista literal, sem possibilidade de transportar os seus filhos para uma escola melhor, sem a possibilidade de se deslocarem à praia, sem a possibilidade de irem a uma entrevista de emprego, sem a possibilidade de irem a uma consulta, etc.etc. Isto são coisas que acontecem no dia a dia.
Bastava uma carrinha de 9 lugares para fazer muitas famílias saírem do poço da pobreza, do insucesso escolar, do desemprego e da exclusão social.
Enquanto o futuro do país vai-se hipotecando com famílias incapazes e jovens desmotivados, sem habilitações e competências para enfrentar o seu devir, os senhores deputados do PS e do PSD estão muito ocupados a legislar sobre....barrigas de aluguer.

domingo, 16 de março de 2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

sábado, 23 de novembro de 2013

Os ciganos



            O recente episódio da criança supostamente raptada por uma família de ciganos gregos veio, de novo, relançar, agora a nível mundial, o problema dos ciganos e da sua integração ou desintegração nas comunidades envolventes. O jornal “The New York Times”, no passado dia 19 de Outubro, fez uma reportagem sobre esta questão num artigo polémico intitulado “Os ciganos são primitivos ou só pobres” (“Are the Roma Primitive or Just Poor?”). O artigo começa por narrar episódios onde ciganos surgem como criminosos, ladrões, manipuladores de crianças e, até, como raptores e questiona se alguma vez se conseguirão integrar na sociedade ocidental.

            Se fizermos um inquérito em Portugal ou em S.Brás de Alportel sobre o que os cidadãos pensam dos ciganos, não haverá dúvidas que as respostas serão maioritariamente negativas. E tal sucede não só por uma questão de discriminação racial mas sobretudo por episódios concretos onde todos directa ou indirectamente já se viram envolvidos ou tiveram conhecimento. A ideia generalizada é que os ciganos, com origem na India e actualmente estimados em cerca de 11 milhões,  são um povo que não gosta de trabalhar e vive da burla e da apropriação do património de terceiros, através de pedinchice, burlas, mentiras e até roubos. Em Portugal, entre outras, acusa-se este povo de recorrer abusiva, reiterada e deliberadamente ao rendimento social de inserção, além do roubo de metais ou alfarrobas. Isto entre muitas outras coisas.

            Tem-se também a ideia que as crianças ciganas não frequentam a escola ou, se o fazem, têm um aproveitamento muito baixo, que muitos ciganos passam o dia sem fazer nada e que se esforçam com vista à sua inclusão profissional ou económica e ainda que a maioria não cuida da sua higiene pessoal. Também é certo que algumas das tradições ancestrais do povo cigano não ajudam à sua integração social e económica. No outro dia, um cigano pedía-me uma esmola para si e para a sua família numerosa e dizia-me que, por o seu pai ter morrido, não podia trabalhar durante cerca de 2 anos até completar o seu luto, o que, em tempos de crise, não deixa de chocar.

            Porém, penso que não devemos tomar o todo pelas partes. Há muitos ciganos que, mantendo o respeito pelas suas tradições, estão relativamente bem integrados, têm uma apresentação e higiene bastante razoável, senão mesmo,normal e vivem do seu trabalho honesto. O problema é que fica-se com a ideia que estes são apenas a excepção que confirma a regra.

            Mas, se olharmos com melhor atenção, podemos concluir também que alguns dos hábitos do povo cigano são claramente um contributo para a actual sociedade decadente dos nossos dias. Destes contributos, destaco 3: (1) O seu conceito de família, sólido, onde há uma inter-ajuda e sentido de unidade quer no interior da família, quer entre famílias (V.g. Quando alguém nasce, vai a família toda para o hospital; quando alguém morre, toda a família vai e fica no cemitério, por vezes, durante vários dias; quando alguém é julgado ou preso, toda a família está presente para mostrar a sua solidariedade). Isto pode ser um grande exemplo para a nossa sociedade que abandona idosos em lares e onde as taxas de divórcio se mantêm altas. (2) A sua relação descomplexada com a natureza e o desprendimento de luxos e bens de segunda e terceira necessidade. Por fim, (3) o respeito pelas tradições, simbolos de um passado que se torna presente e que tem por quase sagrado o papel e a função dos antepassados e ascendentes. Também isto se perdeu por completo na cultura ocidental onde tudo é relativo e opinativo e perdeu-se completamente o sentido da memória.

Acredito, pois, na integração entre a comunidade cigana e a sociedade onde se insere e penso que S.Brás de Alportel é um bom exemplo dessa integração, mas também reconheço que ainda muito caminho a percorrer e cada um tem que respeitar e inevitavelmente adaptar-se um pouco ao outro.                                   
O meu artigo de Novembro do mensário "Notícias de S.Brás" Miguel Reis Cunha